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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Escolas americanas oferecem "clubes do cochilo" aos alunos


 (Foto: Flickr/Zac Zellers)

Os adolescentes não estão dormindo o suficiente: de acordo com estudo publicado no periódicoJournal of Adolescent Health, mais de 70% dos jovens americanos dormem menos de sete horas por noite — segundo a Fundação Nacional do Sono, nos Estados Unidos, o ideal é que fosse um período entre oito e dez horas.
Uma boa noite de sono é essencial para ter mais disposição, concentração, memória, bom humor e evitar problemas de saúde. Pensando nisso, algumas escolas americanas decidiram intervir, criando o "clubes do cochilo". 
Trata-se de uma espécie de atividade extracurricular, na qual é necessário ficar em sala de aula sem fazer barulho, conversar, ou usar dispositivos eletrônicos. Segundo o jornal The Wall Street Journal, alguns colégios estão, inclusive, tentando deixar os locais mais preparados para o descanso, investindo em sofás confortáveis e oferecendo chás para os alunos. "É como se fosse uma sala de estudos terapêutica", descreveu um dos professores ao WSJ
Não é a primeira vez que a ciência sugere que um pouco de descanso pode ser benéfico para a produtividade (e a saúde) de estudantes. Uma pesquisa realizada na Duke-NUS Medical School em Cingapura mostra que tirar uma soneca é melhor do que se matar de estudar de última hora antes de uma prova. Quando o aluno tem uma boa noite de sono, uma parte do cérebro chamada hipocampo "grava" novas informações durante o processo. Segundo o estudo, o cochilo, apesar de ter uma duração menor, pode ter efeitos parecidos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

“Gato” da Copinha é suspenso por 360 dias e não pode atuar em 2017

Heltton Matheus Cardoso Rodrigues, que ficou conhecido como “Gato da Copinha”, teve sua pena decidida pelo TJD-SP, em julgamento realizado nesta segunda-feira. O atleta está suspenso do futebol por 360 dias, além de receber multa de R$500.


 Heltton Matheus não poderá jogar em 2017 (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)
O jogador, que disputou a Copa São Paulo pelo Paulista, de Jundiaí, atuou como Brendon Matheus na principal competição de juniores do Brasil. Pelo documento apresentado para atuar no torneio, ele tinha 19 anos. Na verdade, Heltton tem 22.
Ele foi denunciado no artigo 234 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). Inclusive, o “gato” já estava suspenso, preventivamente, pela Federação Paulista de Futebol.
Em participação no programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, o zagueiro pediu desculpas ao Paulista, por ter mentido e gerado a eliminação do clube de Jundiaí. O Galo da Japi estava classificado para a final da Copinha quando o caso veio à tona. O clube foi punido, e o Batatais ocupou a vaga na decisão, contra o Corinthians.
Com a suspensão, Heltton só pode voltar ao futebol em 2018. O ex-jogador Vampeta, presidente do Audax-SP, já havia manifestado a intenção de dar uma chance ao garoto. Agora, terá de esperar até a próxima temporada.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Mata Hari: A espiã que amava

A holandesa usou seu aspecto mediterrâneo para se fingir de sul-asiática | <i>Crédito: Domínio Público

Há cem anos, durante a Primeira Guerra, ela foi presa, acusada de espionagem. Conheça a história da dançarina burlesca que foi do estrelato para o pelotão de fuzilamento

Margaretha Geertruida Zelle McLeod vestiu-se com elegância para sua morte, naquela manhã de outono de 15 de outubro de 1917. Saia longa, corselete de renda, chapéu de feltro, botinas, casaco e luvas até os cotovelos. O terror de momentos atrás, quando soube que sua pena capital seria executada na penitenciária francesa de Saint-Lazare, transformara-se em calma.
Frente aos 12 soldados do pelotão de execução que apontavam seus fuzis para ela, ouviu a sentença em que era “condenada à morte por unanimidade por espionagem”. Enviou um beijo aos carrascos e sorriu para as freiras que a acompanhavam. Às 6h12, a ordem de execução foi dada por um brusco movimento descendente de sabre. Um dos soldados desmaiou. Onze tiros ecoaram, certeiros. O marechal Petey caminhou até o corpo estendido e disparou na têmpora o tiro de misericórdia.
Uma mãe-de-família holandesa 
Em seus 41 anos, Margaretha foi falsa bailarina oriental e espiã fracassada. Colecionou amantes e mentiras e acabou vítima de seu próprio personagem e do espírito de sua época. Julgada em um processo repleto de falhas, a vedete foi ingênua a ponto de ser transformada, contra sua vontade, em perigosa inimiga da segurança nacional. Durante seu julgamento, o procurador Henri Mornet declarou para um júri já adepto de sua causa: “Vocês têm diante de si talvez a maior espiã do século”. Margaretha já havia se defendido: “Uma cortesã, eu admito. Uma espiã, jamais!”. Mas era tarde: a lenda de Mata Hari já estava há muito criada.
Margaretha nasceu em 7 de agosto de 1876, em Leeuwarden, cidade de 27 mil habitantes no norte da Holanda, filha do chapeleiro Adam Zelle e de Antje van der Meulen. De seu pai, herdara a personalidade pretensiosa e ambiciosa e a facilidade de esbanjar dinheiro. Da mãe, o aspecto tido por exótico para os europeus da época – dizia-se que era descendente de uma antiga tribo da Ásia que migrara para a Escócia e a Irlanda. A infância de sonhos ruiu com a falência dos negócios da família. A crise provocou a separação dos pais. Às vésperas de completar 15 anos, em 1891, a mãe morreu. O pai já vivia com outra mulher, em Amsterdã, e Margaretha foi acolhida por um casal de tios e enviada para estudar na cidade universitária de Leyden, para se tornar professora de escola maternal.
Ela tinha mais de 1,70 metro de altura, ombros largos e seios pequenos - não uma beleza convencional. A seu favor, os cabelos negros, o olhar, os lábios sensuais e o aspecto mediterrâneo, incomuns na Holanda. Aos 19 anos incompletos, casou-se com o capitão Rudolph McLeod, 39.
Em maio de 1897, já com seu primeiro filho, Norman, a família mudou-se para a Indonésia, para onde a empresa em que o capitão trabalhava, a Companhia das Índias Orientais, o transferira. Em Toempoeng, perto de Bali, nasceu Juana-Luisa, apelidada de Non, abreviação de nonah (“menina” no idioma malaio). Na Ásia, por diversão, Margaretha começou a vestir trajes malaios e a imitar danças locais para oficiais, o que era malvisto pelas esposas dos funcionários holandeses. O casamento não ia bem: ela e o marido discutiam muito e, quando bebia, ele costumava ser violento.
Em Medan, uma tragédia. A babá, amante do capitão, tentou matar seus dois filhos, colocando veneno no molho do arroz. Non sobreviveu, mas Norman não. O casamento se degradava a cada dia e, em março de 1902, a família voltou para a Europa. O casal se separou em agosto do mesmo ano. Contra a decisão judicial, o capitão John se recusou a pagar pensão alimentar e sequestrou Non da mãe, que tinha sua guarda. Abalada, Margaretha partiu para Paris em 1903, aos 27 anos.
Instalada em uma modesta pensão familiar, saiu em busca de trabalho como modelo para artistas. Só arrumou serviço para posar nua. Não conseguiu o dinheiro que achou que obteria e voltou para a Holanda, onde conheceu e tornou-se amante de um ricaço, o barão Henri de Marguerie. Em 1904, resolveu tentar de novo a vida em Paris. Com apenas 50 centavos na bolsa, Margaretha desembarcou no Grand Hôtel, com vista para a Opera, e enviou uma mensagem para o barão, que se encarregou de pagar suas diárias e também novos vestidos.
Mudança de hábito
Com o orientalismo em moda na Europa, Margaretha decidiu dançar para ganhar a vida. Sua primeira performance de strip-tease, na casa de uma cantora, já foi um sucesso. Fascinados pelo espetáculo, os diretores do Museu Guimet colocaram o cenário do prestigioso local à disposição de Margaretha e insistiram para que ela adotasse um nome artístico, como era comum na época. Ela optou pelo mesmo nome que usara quando dançava para oficiais na Indonésia: Mata Hari, expressão malaia que significa “olho da manhã”, mas pode também ser traduzida por “luz do dia”.
Sua primeira apresentação no Museu Guimet, em 13 de março de 1905, marca a virada de sua carreira artística. Com quatro bailarinas, Mata Hari dançava em trajes emprestados da coleção do museu: um cinto indiano de pedras preciosas enlaçava seu translúcido sari. Para disfarçar seus seios pequenos, criou um sutiã metálico e adornado de bijuterias, que não tirava jamais. Contorcia-se em cena e despia-se de seus xales até o momento em que, de costas para a audiência, deixava o sari cair.

A Mata Hari que deu certo
Marthe Richard seduziu, espionou e se deu bem



A fama é de Mata Hari, mas foi uma outra jovem a verdadeira cortesã agente dupla que realmente trabalhou a serviço da França. Como boa espiã, no entanto, ela nunca foi pega. E ainda fez carreira política. Marthe Richard nasceu em 1889, em Bettenfeld, na Alemanha, mas adolescente já morava na França. Ficou viúva cedo, em 1916 – o marido morreu na Primeira Guerra. Como Mata Hari, tornou-se espiã por influência do capitão Georges Ladoux, amigo de um de seus amantes. A alemã e Mata Hari, inclusive, chegaram a estar hospedadas no mesmo hotel em Madri, em 1917. Marthe seduziu o septuagenário Hans van Krohn, um dos chefes da espionagem alemã na Espanha, que a recrutou como o agente “S 32”. Graças às suas informações, foram presos vários espiões alemães, foi descoberto o segredo da tinta invisível inimiga, destruído um submarino UB 52 e impedido o sucesso do bombardeamento da costa basca. Nos anos 1930, quando lançou suas memórias, Ma Vie d’Espionne au Service de la France (“Minha vida de espiã a serviço da França”, inédito em português), disse que como agente dupla poderia ter tido o mesmo destino de Mata Hari. “Mas eu tive direito à Legião de Honra e, ela, ao pelotão de execução”, afirmou. Sua carreira política começou em 1945, quando foi eleita para o conselho municipal de Paris. Mas ficou famosa por lutar pelo fechamento das casas de prostituição francesas. Marthe Richard morreu em 1982, aos 93 anos.

⇨ Bastante solicitada nos salões da elite parisiense, em pouco tempo Mata Hari passou a dançar para um público composto de príncipes, como Albert I de Mônaco, e membros da aristocracia. Conquistou também o povo ao apresentar-se no Olympia, primeira casa de shows de música de Paris. Tornou-se uma sensação, seu nome corria pelo continente. Acumulava amantes ricos. 
De 1910 a 1911, desapareceu de cena para viver como amante permanente do banqueiro francês Félix Rousseau. Após a clausura, tentou reemplacar como dançarina, mas não teve sucesso. Sem dinheiro, partiu para Berlim atrás de um ex-amante, o proprietário de terras Albert Kiepert. No país, em maio de 1914 conseguiu agendar uma temporada de duas semanas no music-hall Metropol. A deflagração da Primeira Guerra Mundial, porém, abortou o projeto.
Em 28 de julho de 1914, um mês após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, o Império Áustro-Húngaro invadiu a Sérvia. O conflito generalizou-se rapidamente: de um lado a Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Áustria-Hungria), de outro, a Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia). Mata Hari queria voltar para Paris e, em 6 de agosto, embarcou no trem para a Suíça. Na fronteira, fizeram-na descer para interrogatório. O trem partiu sem ela, mas com suas bagagens. As autoridades alemãs exigiam um documento oficial atestando sua nacionalidade holandesa (poucas pessoas na época possuíam um passaporte) e um visto suíço. Acabou voltando para a Holanda.
Em 1916, tentou novamente ir para Paris, dessa vez por Londres. O cônsul britânico recusou-lhe um salvo-conduto. Os ingleses já suspeitavam que a dançarina era espiã.
Paranoia da guerra
O serviço de contra-espionagem italiano enviara para Paris, com cópia para Londres, uma mensagem dizendo que Mata Hari, então residente em Berlim e que falava com um “leve sotaque alemão” estava em um navio com destino ao Egito, que faria escala em Nápoles. A confusão deve-se, no fundo, ao hábito de Mata Hari de inventar histórias sobre a própria vida. Nove anos antes, fizera um cruzeiro pelo Egito e dera uma entrevista ao jornal Le Temps, dizendo que, no momento, era “berlinense”. O jornal afirmara que o alemão falado por Mata Hari tinha quase nenhum sotaque.
Foi nessa “prova” amadora e inconsistente – sem uma única linha sobre espionagem – que os ingleses sustentaram sua desconfiança. Depois desse episódio, ela passou a ser seguida por pessoas do serviço secreto inglês, que procuravam indícios para culpá-la de espionagem a serviço da Alemanha. Já em Paris, quando chegou em 16 de junho de 1916, foi seguida por policiais franceses, alertados pelos ingleses, até 15 de janeiro de 1917. Nada de realmente suspeito pôde ser notado.
Mata Hari continuou entretendo-se com seus amantes até encontrar o grande e talvez único amor de sua vida, o oficial russo de 21 anos Vladimir de Masloff, o Vadim. A paixão deflagrou as circunstâncias que terminaram por levá-la à morte.
Naquele mesmo ano, ferido no olho esquerdo, Vadim foi transferido para tratamento no hospital militar de Vittel, a 300 quilômetros de Paris. Para visitar o amado, Mata Hari precisava de uma autorização especial de acesso à zona militar. Pediu-a ao capitão Georges Ladoux, encarregado da organização da contra-espionagem. O oficial francês, já informado de que Mata Hari era suspeita de ser espiã alemã, disse à suposta inimiga que daria autorização para ir a Vittel caso ela trabalhasse como espiã para a França. Ela aceitou e foi clara: só o estava fazendo pelo dinheiro.
Espiã desastrada
Mata Hari partiu como uma espiã amadora, sem qualquer missão específica, para a Espanha. Hospedada no Hotel Ritz em Madri e decidida a mostrar serviço, aproximou-se do capitão Hauptmann Kalle, adido militar da embaixada alemã. Ele não notou o golpe e Mata Hari foi manipulada desde o primeiro encontro. Em conversas informais, Kalle lhe passou informações aparentemente importantes, mas na verdade falsas ou obsoletas. 
Por sua vez, ela forneceu impressões banais do que se passava na França, todas acessíveis em jornais ou ouvidas nas ruas, para convencer seu amante de que seu coração batia pela Alemanha. Em dezembro, enquanto ela esperava voltar para a França e receber a recompensa por seu trabalho, o capitão Ladoux interceptou mensagens enviadas por Kalle a Berlim. Referindo-se ao agente “H 21”, relatava as informações (superficiais) passadas por Mata Hari a ele.
Um detalhe indica que a correspondência entre Madri e Berlim fazia parte de uma estratégia dos alemães para incriminar Mata Hari como agente-dupla junto aos franceses. Em 1914, os ingleses já haviam conseguido decifrar o sistema codificado de mensagens alemão. Em 1916 os alemães perceberam isso e alteraram o código. O capitão Ladoux percebeu mais tarde – e escondeu do procurador e do júri que condenou Mata Hari – que as mensagens sobre o agente H 21 transmitidas por Kalle usavam o antigo código, aquele que os alemães sabiam que os franceses conheciam. Ou seja: eles faziam questão que seu conteúdo fosse lido pelas autoridades inimigas.
Em 4 de janeiro de 1917, Mata Hari voltou a Paris. O contexto na França era dos piores. A guerra se alastrava e o espírito de derrota imperava. O clima reinante era o de caça às bruxas e do uso de bodes expiatórios. O governo exigia a prisão do maior número possível de espiões estrangeiros para provar sua eficácia. Não prender Mata Hari seria reconhecer que o serviço de contra-espionagem perdera tempo e dinheiro ao investigar uma mera cortesã aspirante a espiã. Em 13 de fevereiro, por ordem do juiz de instrução Pierre Bouchardon, Mata Hari foi presa em Saint-Lazare.
Os sucessivos interrogatórios não revelaram nenhuma prova conclusiva de crime de espionagem contra a França. Só no fim de abril Ladoux revelou sobre as mensagens alemãs interceptadas. Fez isso, porém, sem revelar as verdadeiras intenções alemãs – o que não deixou dúvidas ao capitão Bouchardon de que a prisioneira era culpada. Foi então que Mata decidiu contar o que até então acobertara. Em uma noite de maio de 1916, segundo ela, recebera a inesperada visita em sua casa na Holanda do cônsul da Alemanha em Amsterdã, Karl Kroemer. 
O diplomata ofereceu 20 mil francos por informações confidenciais que ela obtivesse dos franceses. Ela deveria escrever seus relatórios e assinar com o código “H 21”. Mata Hari disse que concordara, mas só para pegar dinheiro dos alemães – e nunca teria dado informação alguma. O fato explicaria por que os alemães teriam usado o sistema de mensagens para “entregar” aos franceses a espiã que embolsou o dinheiro alemão sem ter feito espionagem para o Kaiser. Mas, em seu julgamento, o júri composto de militares desconheceu ou ignorou as falhas e contradições do dossiê de acusação.
“Mata Hari foi vítima de um erro judiciário”, diz o próprio bisneto de Pierre Bouchardon, o historiador Philippe Collas, em Mata Hari – Sa Véritable Histoire (“Mata Hari – Sua verdadeira história”, inédito em português). “Mata Hari é culpada porque era imoral. Uma mulher liberada, um símbolo sexual, uma mulher livre.” “Foi condenada não por espionagem, mas por sua falta de vergonha”, disse o acadêmico americano Pat Shipman em Femme Fatale: Love, Lies, and the Unknown Life of Mata Hari (“Mulher fatal: amores, mentiras e a desconhecida vida de Mata Hari, sem tradução). A frase definitiva de sua inocência veio, porém, de um de seus maiores carrascos. Cerca de 30 anos após tê-la proclamado “a maior espiã do século” diante dos jurados, o procurador Henri Mornet declarou em uma entrevista sobre o julgamento: “Il n’y avait pas de quoi fouetter un chat” (“não havia com o que fustigar um gato”), a versão francesa de “fazer tempestade em um copo d’água” – expressão, todos sabemos, usada para dizer que não havia nada de grave no episódio Mata Hari.


Saiba mais
Femme Fatale: Love, Lies, and the Unknown Life of Mata Hari, Pat Shipman, Harper Collins, 2007
Mata Hari – Sa Véritable Histoire, Philippe Collas, Plon, 2003


Veja abaixo as fotos do auge de sua carreira (aviso: nudez artística, NSFW). 
1 / 7
Visual incomum
A holandesa usou seu aspecto mediterrâneo para se fingir de sul-asiática (Domínio 
Público)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Fantasmas do ódio: A história da Ku Klux Klan

Encontro da KKK em Wisconsin | <i>Crédito: Getty Images
Durante toda sua história, a Ku Klux Klan simbolizou duas coisas: primeiro, e obviamente, as feridas profundas da Guerra Civil, o rancor imenso dos brancos do Sul aos negros que foram "privilegiados" por Abraham Lincoln. Segundo, a força da Primeira Emenda da constituição americana: que uma sociedade como uma mensagem de ódio tão clara tenha sobrevivido até hoje é o testamento do compromisso absoluto com a liberdade de expressão, como em nenhum outro lugar do mundo. Vejamos por quê.
O Sul não se conforma
A Klan nasceu como um subproduto da Guerra Civil americana, iniciada pelos estados do sul do país, inconformados com o fim da escravidão. A luta durou quatro anos, entre 1861 e 1865, e terminou com a vitória da União sobre os insurgentes, 625 mil mortos e uma imensa região destruída, com a economia estagnada e condenada à pobreza por falta de um modelo de desenvolvimento que pudesse substituir rapidamente a mão de obra escrava.
Em 1866, seis oficiais do antigo Exército Confederado fundaram um clube social em Pulaski, no Tennessee - Ku Klux é uma corruptela do grego kuklos, círculo. No ano seguinte, o grupo foi organizado como "O Império Invisível do Sul" durante uma convenção em Nashville. A organização passou a ser presidida por um "grande mago", o general confederado Nathan Bedford Forrest, um brilhante oficial da cavalaria durante a guerra - e famoso pelo ódio que nutria aos negros e aos colaboradores sulistas do Exército do Norte.

O racismo funda o cinema de ação
O filme de apologia da KKK que foi a sensação dos anos 1910
D. W. Griffith ganhou a alcunha de Pai do Cinema com O Nascimento de uma Nação. Essa trágica saga de duas famílias amigas – os Stonesman, do norte, e os Cameron, do sul, que se enfrentam durante a Guerra Civil norte-americana – provou que era possível prender as plateias em filmes e impulsionou o surgimento de Hollywood. Cenas de batalha bem ensaiadas, com centenas de figurantes, explosões, imagens noturnas e variações de planos marcaram o início da tradição norte-americana em retratar com grandiosidade seus heróis militares. Lançado em meio às celebrações do cinquentenário do fim da Guerra Civil, o longa é quase um documentário. Lincoln declarando guerra ao assinar a primeira convocação de 75 mil voluntários, a rendição do coronel sulista Robert Lee e o assassinato do presidente Lincoln são reconstituídos de maneira convincente. Nenhum estudioso do assunto nega que a película foi fundamental para o desenvolvimento do cinema, mas a propaganda racista explícita torna difícil prestar homenagens ao diretor. Os mocinhos do filme são os membros da Ku Klux Klan. Baseado na obra The Clansman, de Thomas Dixon, o filme causou uma enorme onda de protestos após seu lançamento.

⇨ A irmandade teria como principal função a manutenção da supremacia dos brancos - especialmente depois de uma guerra em que os escravos dos antigos senhores eram agora homens livres, capazes de se organizar. Ou seja, os "novos inimigos" precisavam ser combatidos, ainda que pela intimidação e violência.
Os historiadores se dividem sobre a natureza da KKK. Para alguns, o grupo foi fruto da nostalgia de uma enorme população de veteranos de guerra - o que explica sua pesada hierarquia interna (abaixo do grande mago vêm os grandes dragões, grandes titãs e grandes cíclopes). Para outros, a Klan nasceu com políticas e objetivos bem definidos. Seria a resistência clandestina branca contra o governo do norte e sua Reconstrução Radical - que previa a divisão do sul em cinco distritos militares e eleições multirraciais.
Na prática, a Klan atuava como uma gangue de vigilantes, defendendo as propriedades dos brancos. E não era a única no período. Uma organização parecida surgiu no mesmo ano, na Louisiana: os Cavaleiros da Camélia Branca. Parte do pavor que a KKK espalhava pela região era devido ao seu figurino. Capuzes e camisolões brancos tinham duas funções: assustar negros supersticiosos e evitar a identificação dos membros pelas tropas federais que coalhavam a região. Em pouco tempo, o que era um grupo de vigia passou a promover ataques noturnos para matar negros libertos e seus apoiadores brancos. De um ex-general confederado, surgiu o Prescript, o estatuto da KKK. Além do óbvio elemento racista, o documento pregava a resistência contra algumas das práticas impostas pelo lado vencedor da Guerra Civil, como o de negar direito de voto para pessoas que se recusassem a jurar não ter lutado contra as tropas do Norte.

Um terrorista americanoO atentado de Oklahoma

O supremacista branco Timothy McVeigh é o mais letal terrorista americano. Tímido, na infância, o menino era vítima de bullying. Para evitar ao máximo as provocações, fechou-se ainda mais em um mundo próprio, onde criava planos de vingança contra outras crianças. Quando estava com 10 anos, seus pais se divorciaram e ele foi afastado das duas únicas irmãs. Mais ou menos nessa época seu avô lhe ensinou a atirar. Na adolescência, gostava de exibir suas armas de fogo no colégio. Logo começou a ler revistas como Soldier of Fortune, a bíblia dos mercenários. Adulto, entrou para o Exército e passou a frequentar células da Ku Klux Klan. Lutou e foi condecorado na Guerra do Golfo. Quando voltou para os EUA, tentou ingressar nas Forças Especiais, mas foi reprovado pelo exame psicológico. Em 31 de dezembro de 1991, deixou a carreira militar. Pouco mais de três anos depois, em 19 de abril de 1995, aos 26 anos, McVeigh estacionou uma van alugada diante do edifício federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma. Deixou o lugar a bordo de seu carro, que havia parado previamente ali. Às 9h02 o utilitário explodiu. A mistura de fertilizante, óleo diesel e produtos químicos destroçou a fachada do prédio. No maior atentado terrorista praticado por um americano na história dos EUA, 168 pessoas morreram, incluindo 19 crianças. Uma hora e meia depois, a polícia prendeu o ex-militar, que dirigia sem licença e portava uma arma não registrada. O FBI investigou o passado do suspeito, que anos antes havia sido advertido por superiores ao comprar uma camiseta com os dizeres White Power (poder branco), durante uma manifestação da KKK. McVeigh confessou que colocou a bomba como forma de protestar contra a intromissão demasiada do Estado na vida dos cidadãos: o então presidente Bill Clinton queria aumentar o controle sobre o porte de armas.

⇨ Mais do que apenas minorias raciais, seus milicianos atacavam políticos, a mando do Partido Democrata, que usava as turbas para tumultuar eleições e até assassinar adversários. Só que a proliferação de células acabou se transformando em embaraço até para os patrocinadores da KKK: as arruaças serviam para aumentar o controle do governo federal sobre o sul. Em 1869, o general Forrest ordenou que o grupo fosse desmantelado. O surgimento de milícias rivais forçou diversos estados a adotar legislação proibindo as atividades da Klan. Incluindo o Ato de Direitos Civis de 1871, que deu ao governo poderes para intervir militarmente em localidades onde a KKK se recusasse a depor armas - revogando o habeas corpus e impondo pesadas penalidades para organizações terroristas. Foi o fim da primeira Ku Klux Klan.
Sim, o Partido Democrata, o de Hillary e Obama, não Bush e Trump. Para quem acompanha a política americana, deve soar esquisito que o atual partido da esquerda tenha sido amigo da KKK e do racismo em geral. Isso porque os dois partidos trocaram de posição. Na época de Lincoln, o Republicano, ao qual pertencia, representava as cidades industrializadas do Norte - e seu sentimento abolicionista. O Democrata tinha sua base eleitoral no Sul escravocrata. Tudo isso mudou com a eleição do democrata Franklin Delano Roosevelt, em 1936. Para resgatar o país da Grande Depressão, ele implementou uma plataforma social-democrata, o New Deal. Restou ao Partido Republicano ganhar os descontentes, movendo-se para o conservadorismo - principalmente a partir do final dos anos 1950, durante o movimento para o banimento das leis de segregação, quando o eleitorado racista sentiu-se órfão.
A segunda KKK
Depois de 1871, a KKK parecia morta. A repressão do governo havia funcionado. Em 1882, a Suprema Corte declarou o grupo inconstitucional - e na época a Klan praticamente havia desaparecido. Para alguns historiadores, o fim da primeira Klan deveu-se ao sucesso de seu objetivo: restaurar a supremacia branca nos estados do sul dos EUA. De fato, Carolina do Norte, Tennessee e Geórgia eram governados por simpatizantes da tal supremacia.
Mas os EUA estavam mudando. O ódio aos negros rapidamente encontrou outro alvos. O ressurgimento veio com a chegada de imigrantes europeus a partir do final do século 19, especialmente os católicos e judeus. Havia também o momento populacional interno, com o deslocamento de populações negras para áreas predominantemente brancas do Meio-Oeste. Em 1915, perto de Atlanta, na Geórgia, o coronel e pastor metodista William Simmons lançou as bases da segunda geração da KKK, inspirado pelo livro The Clansman (o homem do clã), de Thomas Dixon, publicado dez anos antes, e no extraordinário sucesso do filme O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith, baseado no livro. O grupo permaneceu pequeno, mas com uma agenda de ódio mais abrangente - que incluía xenofobia e antissemitismo -, e progredia baseado na defesa do patriotismo e de um modo de vida protestante e branco típico das pequenas cidades americanas.
No cenário internacional, um novo elemento funcionou como combustível: a ascensão dos comunistas na Rússia e o crescimento do movimento sindical. Na década de 20, os membros da KKK passavam de 4 milhões. Ao contrário de 1865, a organização se expandiu geograficamente, chegando a regiões que sofriam as pressões sociais da industrialização. Em Detroit, cujo clima e cotidiano não poderiam ser mais diferentes que o dos estados do sul, arrebanhou 40 mil afiliados. A diferença de popularidade em relação ao passado era clara: a agenda da segunda encarnação da Klan tinha um apelo muito mais generalizado. "Estamos falando do auge da KKK, em que ela se torna uma espécie de grupo de apoio numa era em que não existia previdência social, por exemplo. E não eram apenas fazendeiros ou trabalhadores braçais que se assustavam com questões de imigração e de mudanças nos modos tradicionais de vida", diz Thomas Pegram, historiador e autor de One Hundred Per Cent American (Cem por Cento Americano), um estudo sobre a segunda encarnação da KKK. "Profissionais liberais também se juntaram às fileiras da Klan. A população americana na época era de quase 100 milhões, então perto de 5% fazia parte do grupo."
Massificada e com presença em círculos mais altos da sociedade, a Klan pôde exercer influência política. Elegeu xerifes, juízes, deputados e senadores. "A KKK era interessante o suficiente para o eleitorado americano. Mas os políticos que elegia eram amadores e nunca fizeram frente à turma mais experiente. Essas ambições políticas acabariam justamente criando problemas de popularidade para a Klan, pois seus candidatos acabavam parecendo pior que os políticos profissionais aos olhos do público", afirma Pegram. O caráter religioso fez ainda com que as milícias da KKK tivessem papel preponderante nos anos da Lei Seca nos EUA (entre 1920 e 1933, a fabricação e a comercialização de álcool foram proibidas no país), atuando como poder paralelo na repressão, não raramente usando a violência.
A decadência
O declínio começou quando os opositores da KKK passaram a se organizar. Grupos de pressão como a Liga Antidifamação, um poderoso lobby de defesa dos judeus, engrossaram um coro de protestos que ajudou a marginalizar a Klan. A Grande Depressão dos anos 30 também afastou gente de suas fileiras. Divisões internas e escândalos, como casos de corrupção e até uma condenação por assassinato de um líder no estado de Indiana, minaram o apoio popular. Um resultado imediato foi a fragmentação e radicalização do movimento. Grupos passaram a agir de forma independente e, de linchamentos, passaram ao terrorismo escancarado. Em Birmingham, uma das mais importantes cidades do Alabama, ataques com bombas incendiárias a residências de negros nos anos 50 eram tão constantes que a cidade ganhou o apelido de "Bombingham". O terror acabou criando a própria derrocada da Klan. Em 1963, um atentado a bomba a uma igreja batista do Alabama matou quatro crianças e chocou o país. O então presidente Lyndon Johnson assinou o Decreto dos Direitos Civis de 1964, um marco na história das relações raciais e da democracia nos Estados Unidos.
Ainda nos anos 60, o surgimento do Movimento pelos Direitos Civis e a mobilização pelo fim da segregação racial nos EUA (negros, por exemplo, só tiveram direito universal de voto a partir de 1965) também foram fatores que ativaram a terceira encarnação da Klan. Ativistas que vinham dos estados do norte eram alvos preferenciais da organização, e as investigações do FBI sobre diversos incidentes no sul dos EUA durante a década de 60 serviram de pano de fundo para o filme Mississippi em Chamas. Quando o governo enfim aprovou a legislação de igualdade racial, também foi restaurado um ato especial que serviu para coibir as ações da KKK no século 19 - e os ataques começaram a ficar cada vez mais isolados, embora linchamentos, por exemplo, tenham ocorrido até 1981. A Klan era uma entidade anacrônica, que sobrevivia em pequenas comunidades atrasadas nas regiões mais pobres dos EUA. Era essa a "supremacia branca"?
Racismo digital
O mundo dá voltas. Durante a administração Obama, em 2012, um pedido de apelação foi impetrado pela Ku Klux Klan no estado da Geórgia contra a decisão do Departamento de Transportes local de negar a participação do grupo no "Adote uma Rodovia", programa em que diversas organizações ao redor do país custeiam ou promovem mutirões para a limpeza de trechos de estrada. O caso chamou a atenção não só pelo envolvimento de uma das mais temidas e notórias associações extremistas da história americana, mas pelo que soou como uma tentativa de jogada de marketing, incluindo um certo tom de desespero - algo patético.
A KKK havia desaparecido do noticiário até bem pouco tempo atrás. Foi quando declarou seu apoio à candidatura de Donald Trump, celebrou sua vitória com saudações nazistas e se mostrou exultante com seus primeiros dias de governo. Uma entidade quase nostálgica diante da onda de nacionalismo branco atuando por sites de memes, noticiário alternativo e seções obscuras de fóruns populares, congregados em torno da campanha do, para dizer o mínimo, controverso presidente. O ódio tornou-se viral.
Trump, por seu turno, foi visto como racista pela oposição, que exigiu que ele rejeitasse esse apoio - o que fez, se algo timidamente. O mundo espera que ele acabe por frustrar essa ala de sua torcida. ■

Nascida para odiarO estatuto da primeira Ku Klux Klan é um exemplo de que a organização surgiu voltada à destruição. Conheça alguns tópicos do Prescript:
 Membros não podem ter lutado contra os confederados na Guerra Civil.
 Membros devem se opor à igualdade racial.
 Membros devem ser a favor de um governo de brancos.
 Membros devem ser a favor do retorno dos direitos dos homens do sul, incluindo os de propriedade (e de ter escravos).
 Membros têm de estar prontos para pegar em armas contra os abusos do poder.

O ritual da cruzUm dos símbolos da Ku Klux Klan é a cruz incendiada ou iluminada. O ritual é do ressurgimento do grupo, nos anos 20, e não existia no movimento original, do século 19


► Brasão: o emblema circular tem uma gota de sangue no formato do número 6. Remete aos fundadores da KKK e ao sangue derramado dos brancos. Antes era em forma de cruz e tinha o símbolo do yin-yang.
► Em nome de Deus: a Klan defende o homem branco, protestante e sulista. A Bíblia é parte integrante dos rituais.
► Roupas brancas: a intenção era representar fantasmas de soldados mortos durante a Guerra Civil - e assustar os negros. A ideia surgiu no livro The Clansman e foi adotada pela segunda encarnação da KKK.
Batismo: o novo integrante tem de recitar um juramento: "Lembrem a todo momento: fidelidade à fé jurada é honra, vida, felicidade. Mas, para quem infringi-la, significa vergonha, desgraça e morte".
Cruz em chamas: representa o Espírito Santo e era usada em todas as reuniões da KKK. Surgiu na segunda encarnação. A ideia veio do filme O Nascimento de uma Nação (1915).
► Armas nos rituais: a Klan é um grupo armado (e que defende a posse de arma como símbolo da luta do indivíduo contra o Estado, o que é garantido na Segunda Emenda da Constituição americana, que permite a criação de milícias).
► Bandeira Confederada: ela representa o Exército do Sul, que se insurgiu contra a União durante a Guerra Civil americana (1861-1865). Foi adotada em 1949.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Islã: uma casa dividida


Allah, o nome de deus em árabe, um dos grandes símbolos do Islã. | <i>Crédito: Wikimedia Commons













  De onde vem a separação entre sunitas e xiitas?

Quem é mais velho vai lembrar o tempo em que "xiita" era usado como sinônimo para fanático. Foi assim por causa da Revolução Iraniana de 1979, feita por clérigos xiitas, que deixou a impressão no imaginário popular que o fanatismo era um privilégio desse setor do Islã. Era a mesma época em que militantes sunitas do Afeganistão - e convidados como Osama Bin Laden - lutavam contra a União Soviética com apoio dos EUA e eram retratados como heróis (o próprio Rambo apareceu ajudando os futuros arquiinimigos). 
A metáfora ficou obsoleta com a ascensão da Al Qaeda, formada por sunitas. A Al Qaeda do Iraque, e depois seu sucessor, o Estado Islâmico, realizaram uma série de atentados e massacres que foram, em 2016, classificado pelo congresso dos EUA como um genocídio. Aliás, o divórcio entre Al Qaeda e EI ocorreu por causa disso - a liderança internacional da Al Qaeda condena o massacre de xiitas pelos colegas iraquianos. 
Por trás dessa matança existe um conflito histórico que remonta às primeiras gerações de muçulmanos. Tudo começou com uma desavença política, que sofreu uma transformação gradual nos séculos seguintes. Os dois lados adquiriram diferenças teológicas, colecionaram ressentimentos e hoje protagonizam um confronto geopolítico. É o que você vai ver nesta reportagem. 

Xiitas e sunitas
Esta é a proporção entre os dois segmentos ao redor do mundo


Infográfico AH. Clique para ampliar.

⇨ O sucessor 

Para entender a disputa entre xiitas e sunitas é preciso voltar ao século 7, quando Maomé fundou o Islã. Segundo a tradição muçulmana, os seguidores do Profeta deixaram a idolatria - ou o cristianismo e judaísmo, consideradas interpretações corrompidas - para seguir Alá, o deus único. Maomé foi perseguido em Meca, sua cidade natal, e migrou para Medina – onde fundou a comunidade islâmica unida (a umma). Lá, tornou-se um líder religioso, político e militar. E as revelações divinas feitas a ele seriam registradas no Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Maomé nunca deixou claro quem seria seu sucessor. Quando morreu, em 632, a comunidade muçulmana tinha um belo abacaxi nas mãos. Como seria escolhido o novo líder? Que funções ele teria? Quanto duraria o mandato? Assim, surgiram dois grupos antagônicos. “O primeiro, minoritário, preferia reservar a honra da linhagem profética à família de Maomé. Seu pretendente era Ali ibn Abi Talib, genro do Profeta, casado com sua filha Fátima”, diz o historiador Peter Demant, autor de O Mundo Muçulmano. “Para a segunda corrente, porém, qualquer fiel poderia ser candidato, desde que fosse aceito por consenso pela comunidade.”

O grupo menor formava o Shiat Ali, ou “partido de Ali”. Seus seguidores ficaram conhecidos como xiitas. A facção majoritária foi chamada de sunita (do termo Ahl al Sunna, “o povo da tradição”). Em meio à emergência de escolher um novo líder, o círculo íntimo dos seguidores do Profeta elegeu Abu Bakr, velho companheiro de Maomé. Abu Bakr usou o título de califa (khalifa khalifa), uma palavra árabe que combina as ideias de sucessor e representante. Os sunitas aplaudiram a escolha, mas o xiitas protestaram: eles
insistiam que Ali era o candidato legítimo.

Pouco antes de morrer, em 634, Abu Bakr apontou Umar ibn Al-Khatab como seu sucessor. As tropas de Umar expandiram o domínio do Islã pela península arábica, Egito, Síria, Palestina, Mesopotâmia e parte do Cáucaso. Em seu leito de morte, Umar nomeou um conselho para decidir quem seria o terceiro califa. E o escolhido foi Uthman ibn Affan, membro de uma família grã-fina de Umaya, em Meca. Uthman derrotou a Pérsia e ampliou ainda mais os domínios do califado, mas os conflitos internos minaram seu governo. As tribos nômades o identificavam com os privilégios dos aristocratas que Maomé havia combatido. A crise desbancou para uma guerra civil e rebeldes muçulmanos assassinaram Uthman em 656, abrindo espaço para que Ali – o preferido dos xiitas – se tornasse califa. “Quando Ali finalmente assumiu, as divisões eram profundas demais para que ele conseguisse impor sua autoridade”, diz Demant. Ali foi assassinado 5 anos depois, em 21 de Ramadã de 40 pelo calendário islâmico (ou 29 de janeiro de 661 pelo cristão). Os xiitas apoiaram a posse de Hassan, filho de Ali, mas o jovem cedeu ante a oposição de Muawiya ibn Abu Sufyan, governador da Síria. Muawiya fundou então a primeira dinastia de califas: a dos omíadas, sunitas. Os sunitas reconheceram o reinado dos 4 primeiros califas – os Reshidun (“os retamente justos”). Para os xiitas só o reinado de Ali foi legítimo

A mutação do conflito


Nos séculos seguintes, a divisão passou a incluir também agravos e diferenças teológicas. E essas mudanças começaram a tomar forma em 680. Foi quando Hussein, filho caçula de Ali e neto de Maomé, comandou uma rebelião xiita para impedir que o califa omíada Yazid assumisse o trono. Hussein foi degolado e seus aliados acabaram mortos na Batalha de Karbala, no atual Iraque. “O tratamento dado a Hussein motivou ressentimentos entre os xiitas. A celebração de seu assassinato durante a Ashura (o décimo dia do mês de Muharran) se tornou um período emotivo no qual a comunidade xiita compartilha seu sofrimento”, diz Yvonne Haddad, professora de História do Islã na Universidade de Georgetown.

A tragédia também ajuda a entender por que os xiitas valorizam tanto a noção de martírio. Segundo Haddad, a principal distinção entre os grupos vem de sua visão de mundo. Sunitas acreditam que o Corão é a palavra eterna de Deus que coexistia com Ele antes da Criação. Já para os xiitas, o Corão foi criado no tempo e passou a existir quando Deus se revelou à humanidade. Isso faz toda a diferença na maneira como eles leem o livro sagrado. “Xiitas consideram que precisam ser guiados para interpretar o Corão na vida diária, pois o livro depende da época e do lugar. Assim, precisam um imã (líder religioso) para ajudá-los a entender a mensagem do Corão”, diz Haddad. “Os sunitas, por sua vez, acreditam que a palavra de Deus é a mesma e vale para qualquer tempo e lugar. Portanto, as opiniões dos clérigos sunitas não são tomadas muito seriamente. E aqueles que clamam por um retorno às interpretações originais são levados muito a sério. Sunitas tendem a ser mais doutrinários.”

Os dois grupos também seguem diferentes coleções de Hadith, as narrativas sobre atos e palavras do Profeta. Isso porque cada lado confia em narradores diferentes. Sunitas preferem aqueles que eram próximos de Abu Bakr, enquanto os xiitas confiam nos que pertenciam ao grupo de Ali. Aisha, por exemplo, é considerada uma fonte importante pelos sunitas e desprezada pelos xiitas por ter lutado contra Ali.

Árvore genealógica
Estes são os maiores ramos do Islã

Infográfico AH. Clique para ampliar.

Aqui é possível fazer uma comparação com o cisma cristão, pois ele também deriva de um embate sobre a autoridade religiosa.

Católicos defendiam que a Igreja tinha o poder de definir o que é o cristianismo, enquanto os protestantes deixavam essa decisão na mão dos indivíduos. No caso do cisma muçulmano, a discussão é um pouco diferente. Sunitas creem que a autoridade está calcada na tradição, isto é, nas práticas do Profeta e de seu círculo íntimo tal como eles a definiram.

Já para os xiitas a autoridade está nas “fontes de emulação” – os líderes supremos da hierarquia religiosa xiita, como os aiatolás. Sunitas também consideram que o imã é simplesmente a pessoa que lidera a congregação, como o pastor dos cristãos. Já para os xiitas, o termo Imã (com letra maiúscula) assumiu um significado totalmente diferente. Ele se refere aos verdadeiros sucessores espirituais do Profeta Maomé, começando por Ali. Os xiitas veem os Imãs como uma espécie de santos – o que para muitos sunitas é uma verdadeira heresia.

Além disso, os xiitas cultivam uma expectativa messiânica sobre a vinda do Mahdi (Redentor), o que não se observa tanto na outra corrente. Ou seja: os sunitas são ancorados no passado, ao passo que os xiitas são mais experimentadores e olham mais para o futuro. O título de aiatolá, aliás, é bastante recente. E – veja só que ironia – acaba reproduzindo no Islã xiita a estrutura do clero cristão. “Os líderes do Irã já dotaram seu país dos equivalentes de um pontificado, de um colégio de cardeais, um conselho de bispos e, principalmente, de uma inquisição, coisas que eram todas alheias ao Islã”, diz o historiador britânico Bernard Lewis, da Universidade de Princeton, EUA. “É possível que acabem provocando uma Reforma.”

Assassinos: os avós dos terroristas

O martírio é uma noção fundamental entre as seitas xiitas. Mas nenhuma delas levou a ideia tão a sério quanto a Ordem dos Assassinos, que espalhou o terror na Pérsia e na Síria nos séculos 11 e 12. Seus integrantes eliminavam gente graúda: monarcas, ministros, generais e religiosos – do bando rival, claro. “O inimigo era o sistema político, militar e religioso sunita. Os assassinatos eram planejados para aterrorizá-lo, enfraquecê-lo e, finalmente, derrubá-lo”, diz o historiador Bernard Lewis no livro “Os Assassinos”. Executar a vítima significava um ato de devoção e envolvia um belo ritual. Segundo os relatos do explorador Marco Polo, que esteve na Pérsia em 1273, os chefes da seita ofereciam haxixe aos jovens convocados para matar – daí o nome Haxaxin, que depois derivou para Assassinos. A droga lhes dava um gostinho antecipado das delícias do Paraíso.

É que nenhum deles esperava sair vivo da missão. “Depois de matar, os Assassinos não tentavam fugir nem cometiam suicídio. Eles esperavam morrer na mão dos inimigos”, diz Lewis. Sempre usavam a adaga em vez de veneno ou armas de arremesso, o que tornava a operação muito mais arriscada. Atacavam em mesquitas, mercados ou palácios, agiam sob absoluto sigilo e muitos se vestiam de mulher para garantir o sucesso da emboscada. O fundador da seita teria sido o persa Hassan i-Sabah, conhecido como Velho da Montanha. Ele teria recrutado os primeiros Assassinos depois de se converter ao ramo ismaelita do xiismo no século 11 – época em que o Oriente Médio foi invadido pelos cruzados.

Disputa virou geopolítica
Atualmente, os sunitas representam cerca de 90% do Islã e os xiitas, 10%. A velha rixa é travada por governos cujos interesses vão além da tradição religiosa. “O que vemos hoje é um conflito geopolítico”, diz o escritor Reza Aslan, especialista em história do Islã. Para ele, há dois polos de influência no mundo islâmico: Arábia Saudita (sunita) e Irã (xiita). “Vemos diversos grupos fundamentalistas, como os sunitas da Al Qaeda e Estado Islâmico, que acusam os xiitas de serem infiéis. A primeira, que deu origem ao segundo, veio da Arábia Saudita, que enxerga o Irã como a principal ameaça”, diz .
A violência tem história. Nos primeiros séculos do Islã, houve guerras massivas. “Nos séculos 7 e 8, os omíadas construíram um império sunita. E quem não fosse sunita era massacrado”, diz Aslan. “No século 8, os abássidas assumiram o poder. Eles descendiam de Maomé através de Fátima (filha do Profeta e mulher de Ali). Eram xiitas. E seu império massacrou sunitas.”
O Iraque, dividido entre as duas alas, virou palco perfeito para o renascimento do embate, com o Estado Islâmico retomando o papel de extirpador de xiitas desses impérios históricos.

Com a presença de Neto, Chapecoense apresenta elenco para 2017

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